FEAR OF GOD

fog 20031 – Bom Erich,  vamos começar essa entrevista com uma pergunta clichê: o que motivou vocês a começarem a banda em 1987 e o que aconteceu para resultar em seu fim em 1988?

Erich: O que nos fez começar a banda e seus antecessores, foi simplesmente o amor por esse tipo de música. Sempre foi um sonho meu criar minha própria música, a música como eu a tinha na mente, riffs que estiveram guardados durante anos antes do Fear Of God, no período de 1985 a 1987. Depois disso vi que podia concentrar minha energia num projeto e no fim de tudo, na primavera de 1987, o Fear Of God nasceu. A banda desenvolveu-se rapidamente pois eu acho que os outros, Tschosi e Dave, se sentiam do mesmo jeito que eu e nós éramos perfeitos um para o outro, então o Fear Of God começou a dar certo muito rápido.

O que nos levou ao fim? Bom, nós estávamos exaustos, putos e desapontados com a direção que a coisa toda começou a tomar, a forma ficou mais importante que o conteúdo, logo aqueles que se venderam estavam estavam a disposição e os que falavam demais pareciam querer fazer parte disso o quanto antes. Num nível mais pessoal e em retrospectiva, minha personalidade também começou a mudar naquele período. Mais e mais eu comecei a entender que existia algo mais na vida do que só esse lance da música, a qual eu dediquei tantos anos da minha vida, pela qual eu desisti dos meus estudos, que me levou cada vez mais a uma posição solitária de ser o cara que dedicou sua vida toda ao underground, não tendo amigos e que normalmente não sabia muito de coisa alguma. Então, quando eu ainda estava no Fear Of God, minha mente começou a expandir numa outra direção, comecei a ler cada vez mais e dei a mim mesmo uma educação filosófica, literária e histórica auto-ditada, só por ler e escrever muito, mas levou 15 anos para eu finalmente começasse a  frequentar uma universidade e ai sim usar o que havia aprendido.

Até hoje em dia, eu ainda acho difícil colocar esses dois elementos juntos: a intelectualidade e a paixão pela música. Eu frequentemente brigo com esses dois lados: qual caminho devo tomar? Eu ainda não sei e provavelmente nunca saberei. Essa coisa de música parece ser uma sentença de vida (como me escreveu Seth do Anal Cunt uma vez por carta).

2 – Depois disso o que aconteceu na vida de vocês? Eu sei que em 1992 houve uma reunião não bem-sucedida do Fear Of God, o que aconteceu de errado? Você manteve contato com os outros caras?

Erich: A reunião de 1992 foi um erro. Nós não estávamos preparados pra isso, talvez eu estivesse mas os outros não. Nós ensaiamos duas ou três vezes com um baterista novo, acho que o nome dele era Ricky, soou legal mas o sentimento não estava lá. Mesmo assim concordamos em tocar uma gig em Leipzig, na Alemanha, mas dois dias antes da gig, Tschosi e Dave pediram pelo fim da banda e no final das contas eu, por me achar no dever, fui sozinho e acabei fazendo improvisos com os sons do Fear Of God com Seth (Anal Cunt) e um cara do Feedback Recycling para um público grande de metaheads incrivelmente  estúpidos. Lá estava eu em cima do palco pregando minha missão política daquela época… em uma só palavra: HORRÍVEL! Até hoje em dia eu não consigo ouvir a gravação em tape dessa gig e me sinto muito embaraçado com isso tudo. Por favor nunca assistam ao video dessa gig! Aquilo não é Fear Of God, é apenas um erro do ego do Erich Keller.

Tschosi, Dave e eu perdemos completamente o contato depois disso! O Dave e eu continuamos amigos de certa forma, mas o Tschosi não quis mais minha amizade. Anos mais tarde fiquei sabendo que ele tinha feito o mesmo com Dave e que não queria nem saber de nada relacionado ao Fear Of God. O mesmo aconteceu com Osi, nosso primeiro baterista, que de alguma maneira parecia ser um discípulo do Tschosi, não vou falar mal deles, eles mudaram e isso pra mim é perfeitamente compreensível. 

Hoje em dia, Dave e eu moramos perto, cinco minutos de bicicleta, na mesma vizinhança de Zurique. Temos tanto em comum quanto somos diferentes um do outro, mas estou feliz em dizer que estamos juntos de novo e que sem um de nós dois não haveria o Fear Of God.

3- Pois bem, o  Fear Of God está de volta agora, você pode nos falar como se sente voltando pós todos esses anos silenciosos? Como é ensaiar de novo, fazer sons novos e ter a chance fazer ua tour? Fala algo sobre a nova formação.

Erich: Ainda sinto que isso tudo é estranho, e é claro que é. A banda ficou, como você disse, silenciosa durante 15 anos – vamos esquecer aquele lance de 1992 que só durou umas duas ou três semanas -, nós agora temos mais de 30 anos, falando do Dave e de mim, tivemos momentos difíceis na vida e tudo mais, mas por mais estranho que isso possa ser, também é bom!  distância com que vejo as coisas hoje em dia é um grande bem! Não preciso mais me preocupar com “a cena” e nem com coisa alguma, você sabe disso.

As sessões de ensaio agora estão igual ao que eram na época original da banda: somos concentrados e ao mesmo tempo descarados, empolgados embora com o pé atrás em relação ao que fazemos. fazer sons novos ou mudar um pouco os antigos é uma sensação maravilhosa e é por essa razão que estamos fazendo isso tudo, certo?! Aquele sentimento de andar pela sala com um riff na cabeça, colocá-lo pra fora, trabalhar nele e poucos dias depois ter um som novo onde não existia nenhum antes! Esse ato de criatividade é o núcleo da banda, colocamos muita energia nisso e miraculosamente recebemos mais energia de volta! Isso é mais uma esfera de arte do que de vida, no mundo físico você sempre perderá energia, mas em nosso microcosmo, nós estamos sempre gerando outra forma de energia que dura muito tempo, putz! isso é ótimo! 

A nova formação, além do Dave e eu, é: Diego Dolp na guitarra e Andre Gerber na bateria. Diego é bem jovem, tem só 22 anos, mas é decididamente um amante da música extrema como nós e isso é a coisa mais importante numa banda como o Fear Of God. Ele é mais técnico que o Tschosi, tem um equipamento melhor também – Ah! os tempos estão mudando, né?! – e coloca muito de si no Fear Of God, trabalhando de maneira mais concentrada que o antes mencionado. Ele é um cara inteligente, legal e engraçado com certo juízo e charme.

André, a máquina, também tem mais de 30 anos, um espertalhão, engraçado e profissional ao mesmo tempo. Na verdade ele é baterista de jazz, tem um horizonte musical diferente do resto da banda e eu acho que isso só pode ser uma coisa boa ao lobgo do tempo. Estamos contentes por tê-lo na banda!

4- Algumas bandas são bem conhecidas por estarem na ativa por muitos anos e se tornam “cult”. Quanto ao Fear Of God, parece que vocês se tornaram uma “banda cult” por causa do longo tempo em silêncio! O que acha do fato de muitas pessoas mundo a fora ainda continuarem curtindo o som que fizeram há tanto tempo atrás?

 Erich: Claro, essa é uma sensação ótima e  talvez um peso também. Mas porra, não vamos falar “oh, você sabe, isso é não é importante pois fazemos  o que fazemos de qualquer maneira”. Sinto-me privilegiado por ser entrevistado ou por haver pessoas interessadas no que a banda faz. talvez tenha sido o seguinte que nos tornou uma “banda cult”: os anos de silêncio, a recusa em ganhar dinheiro ou vender-se, ou talvez também, pelo menos é assim que gosto de pensar, a seriedade que a banda sempre teve naquilo que fez e não fez.  Mas esse rótulo de banda cult nos dá momentos difíceis também. Nós também somos fãs e existem trilhões de bandas que sentimos “uau, essas bandas merecem mais atenção e reconhecimento”. Mas não quero mal, dizer isso e aquilo, deixe que as pessoas escolham e não as bandas.

5 – As edições piratas dos discos do Fear Of God ajudaram para o nome da banda permanecesse vivo ou eles são apenas um monte de discos sem sentido?

Erich: A relação entre piratas e popularidade é obviamente dialética. Quanto mais a banda popular, mais pirateada ela é, a menos que a banda tenha lançamentos frequentes, e quanto mais piratas a banda tem, mais popular ela fica.

A primeira vista, os piratas me fizeram sentir bem, mas esses lançamentos anônimos de pedaços de lixo iguais ao Lp “Grind Masters”, pelo qual tivemos que pagar para conseguir uma cópia pranós mesmos, são uma desgraça! Não comprem esses piratas por favor! Não deixe aqueles que não tem nada a ver com o Fear Of God (ou qualquer outra banda pirateada) fazer grana do nosso trabalho. 

Esse é um aspecto puramente capitalista da produção da cultura de valorização desses que ficam entre o público e quem trabalha apenas sugando o dinheiro, isso me deixa louco.

6 – O que você acha de ter visto todo o desenvolvimento do hardcore-noise que logo torno-se uma competição pra ver quem era o mais barulhento, o mais rápido, etc… e que nos final dos anos 80 deu surgimento ao grindcore, tornou algumas bandas famosas e em seguida só mais um modismo?

Erich: Bom, tudo foi pelo cano assim como todas as outras subculturas anteriores ( e nenhuma outra depois, pois acredito que o punk-hardcore e suas crias foram as últimas subculturas clássicas antes da mídia e das majors dominarem todas as cenas e toda a juventude do nosso período). 

7 – Você acompanha a cena atual? Está ouvindo alguma banda nova?

 Erich: Conheço alguma coisa de metal tipo Nasum e outras incontáveis bandas de grindpop limpinhas que as vezes eu pego pra dar uma ouvida, mas não mais que isso. Quanto ao hardcore, bom, é realmente triste ainda existirem umas cópias usando esse termo. Mas a maioria hoje em dia não passa de uma espécie de metal que é vendido juntamente de um comportamento e estilo hip-hop e que também recebem esse rótulo de hardcore, mas que na verdade são a merda mais ridícula e fudida que já ouvi (não vou mencionar nomes). 

8 – Certa vez você mencionou que quando reiniciaram a banda, vocês pensaram em dar uma acalmada já que muitas bandas hoje em dia são rápidas e brutais, no entanto perceberam que ainda têm muito a oferecer em termos de destruição musical. Bom, sendo assim, fale o que os velhos fãs do Fear Of God podem esperar de vocês e o que vocês têm a oferecer para uma nova geração tão acostumada com bandas barulhentas… 

Erich: Sim, é verdade. Nós primeiro pensamos: porra, existem muitas bandas bandas hoje em dia resgatando o que fizemos há tantos anos e todas elas soam tão jovens, então porque não dar uma acalmada e tentar encontrar uma sonoridade nossa? mas em seguida, quando começamos a passar nossos sons antigos de novo, percebemos que ainda funcionavam, ao menos para nós, e que não existe nada melhor que tocar barulho em alta velocidade e colocar tanta agressão e brutalidade quanto é possível e você lá, vendo que isso é REAL. Tudo o que posso dizer é que não, nós não acalmamos, continuamos aquilo pelo que sempre fomos conhecidos: brutalidade  musical com letras radicais e, acima de tudo, seriedade no que fazemos. Nossos sons novos talvez sejam um pouco mais complexos que os antigos, talvez o som seja mais nítido também, mas estamos tentando oferecer isso que é chamado de grindcore com um forte direcionamento noise combinado com groove. Nós lançaremos alguma gravação nova no verão de 2003 (inverno brasileiro) e aí vocês poderão julgar por si mesmos se o que estamos fazendo é lixo ou se ainda esta rolando legal.

9 – A discografia da banda intitulada “zeitgeist” (espírito do tempo) nem saiu ainda e já pode ser considerada um tipo de paradoxo uma vez que a versão em Cd sairá por um selo bem conhecido pertencente ao não menos conhecido Mike Patton (Faith No More), enquanto a versão em Lp duplo sairá por um selo desconhecido que pertence a mim mesmo e num esquema quase fundo de quintal! Você poderia falar algo sobre isso e também sobre o contato com Mike Patton?

Erich: Sempre ouvi histórias sobre o Mike Patton entrando nas lojas de discos de Zurique e perguntando por discos do Fear Of God anos atrás. Pensava que tais histórias eram piadas pois, honestamente, o próprio Faith No More é uma piada. Mas quando encontrei o Dave novamente, descobri que ele estava em contato com Mike há anos e, até deixou que ele gravasse um cover-versão de “Circle-A”, que é um antigo som meu. Uns poucos meses atrás eu recebi um email do Mike pedindo para lançar o “Zeitgeist” por seu selo, a Ipecac.

Porque lançar o “Zeitgeist” pela Absurd, seu selo? Bom Marcelo, se você conseguir juntar tudo e lançar (ah!). Essa é a edição de despedida do Fear Of God 1987-1988. Pensei que seria perfeito ter um selo underground com um cara legal como você pra colocar o velho Fear Of God pra descansar, acho que é isso. 

 

•entrevista por Marcelo R.Batista para o fanzine Contravenção (Abril de 2003)

•site:  www.fearofgod.ch

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